Festas de miúdos (trocadas por miúdos)





Esqueçam a violência no desporto, os reality shows, o turismo descontrolado e o trânsito. 

A maior praga do século XXI tem sabor a gomas e sumol de laranja e são as festas de aniversário da criançada. 

Actualmente ter um filho ou adquirir um free pass para semanalmente conviver com um panda gigante, 50 mini princesas da disney histéricas ou com super-herois de palmo e meio que decidiram que as tuas pernas são o inimigo a abater é exactamente a mesma coisa.

- Parabéns, nunca mais terás um fim-de-semana livre nos próximos 5 anos.
É assim que congratulo e dou as boas-vindas a quem entra no maravilhoso mundo da paternidade.
As pessoas não gostam muito desta abordagem e deve ser por isso que para se vingarem nos anos seguintes convidam sempre a minha filha para o cumpleaños daquele tão aparente inofensivo ser que acaba de nascer.
Ainda tento retorquir:
- Oh Anibal mas tu sabes lá se o Gonçalito quer mesmo a Carminho no aniversário, ele ainda nem fala!!!! Na volta, um dia mais tarde, até vai ficar chateado quando vir nas fotos que nós estivemos presentes.
Nunca deu resultado.
Há pessoas que levam os seus planos de vingança até ao fim.

A vida social das crianças de hoje em dia faz uma qualquer Lili Caneças corar de vergonha:
São os aniversários dos colegas da escola actual,
dos colegas da escola anterior,
dos filhos dos amigos dos pais,
dos filhos dos colegas de trabalho dos pais,
das crianças da família,
dos filhos dos vizinhos do prédio ( que vá-se lá saber porquê devem achar que ficamos chateados se ouvirmos uma grande gritaria no condomínio e não estivermos presentes).
São ainda os aniversários dos irmãos dos petizes que se são mais novos ainda não têm muitos amiguinhos pelo que a nossa presença assume-se como um acto de caridade para que a festinha fique composta. 
Se os irmãos são mais velhos então somos convidados para que a nossa filha faça companhia à amiga para que ela não fique sozinha com os pequenos vândalos dos amigos do irmão.
Facilmente percebemos que na conjuntura actual, uma família que tenha apenas uma festa de aniversário por semana constitui um agregado familiar socialmente excluído.

Faltar não chega sequer a ser opção.
Se é verdade que a possibilidade de termos um filho eternamente marginalizado por um acto egoísta até pode ser algo que não atinja o nosso coração, sermos nós próprios colocados de parte nos grupos de pais do whatsapp em combinações futuras já é algo que pode doer bastante. 

Para cada festa há que comprar um presente.
Mas o presente tem que ser suficientemente original para que ninguém ofereça um igual ao aniversariante e deverá ser diferente de todos os que já demos nas festas anteriores ( todos se conhecem e há sempre repetentes nas festas). Convém ainda ser algo que não tenha sido anteriormente oferecido por outro pai ou mãe a outro puto aniversariante. É por isto, que são muitos os casos em que o membro do casal que compra a prenda está dispensado de acompanhar a cria à festa ficando a tentar recuperar em casa alguma sanidade mental.
- Então o João não veio?
- Ficou responsável pela prenda.
- As melhoras.

Além da prenda e da obrigatória disponibilidade, raros são os aniversários em que não temos que preparar pelo menos um adereço alusivo ao tema da festa.
É verdade. Vivemos numa era em que  as festas de aniversário são quase sempre temáticas.
Uma festa de anos sem um tema não é uma festa de anos, é um grupo de pessoas que se junta para comer bolo. 
Se no meu tempo ( merda... chegou o dia em que disse esta expressão) perguntasse aos meus pais qual o tema da minha festa de aniversário era provável que a resposta fosse:
- O tema? O tema são os teus 5 anos.
Hoje, os aniversários das crianças são uma mistura de aniversário ( felizmente que ainda se vai mantendo a parte do bolo e das velas), Carnaval (muitas fantasias), Natal ( aglomerado de prendas que se forma no canto da sala à qual os miúdos não ligarão puto) e Halloween ( a cara dos pais, no fim da festa, quando se apercebem que muito para breve está reservada outra dose). 
Dose essa que será provavelmente a muitos kms de distância.

Sim, porque para se realizar uma boa festa de aniversário não basta a sala de lá de casa. É preciso espaço. Muito espaço. Tanto espaço que o ideal seria a festa realizar-se no espaço. E só ser convidado quem tivesse um foguetão.
Insufláveis, pinturas faciais, campo de futebol, casa de bonecas gigante, mesas para a refeição, trampolins, zona para os pais confraternizarem, salão de jogos, canto das actividades didáticas, musica, espaço multimédia, área para os palhaços, mágicos e senhores que transformam balões em esculturas, piscina de bolas, sítio para pendurar a pinhata, escorregas e baloiços, cantinho para legos e outro para os desenhos. 
Isto é o mínimo dos mínimos que uma razoável festa de aniversário de miúdos têm que ter. 
Ainda no outro dia estive numa festa em que  não houve bolo, nem se cantou os parabéns e o que mais se comentou nos dias seguinte foi que ninguém viu a piscina de bolas. 

Bolas, pelo menos eles ficam cansados e adormecem cedo, dirá o perspicaz leitor. 
É verdade e isso seria uma extraordinária vantagem se não acontecesse o mesmo connosco. 

Escrevo isto numa sexta-feira, véspera de fim de semana, ou como costumo dizer, véspera da época festiva. Nos próximos dois dias a minha filha tem 4 aniversários.  
Mais do que eu no ano inteiro.
Resta-nos lembrar que há-de chegar o dia em que eles vão sozinhos para as festas sem quererem a companhia do pai, da mãe ou da avó.
E ter esperança que esse dia chegue rápido.

Para depois desejar, claro está, que nunca tivesse chegado.
É sempre assim, não é?