05/06/2008

13: FLORES


Boa tarde

Chamo-me Mário Dias e tive há pouco tempo conhecimento do tipo de serviços que Vexas prestam, tendo-me certificado da qualidade e prontidão com que os mesmos são realizados.
Tenho 20 anos e estou apaixonado por uma rapariga, pelo que gostava de lhe fazer mais uma surpresa, já que as últimas que lhe tenho feito têm tido consequências nefastas no meu coração.
Realmente nasci para amar a pessoa errada, qual Romeu que procura contrariar a sua sina.
A Joana ama-me, que eu sei, no entanto os pais dela são de um conservadorismo atroz que já por mais do que uma vez me deixou de rastos.
Contacto com Vexas para que me auxiliem na surpresa que, depois de muito pensar, eu quero fazer:
Pretendo que vão a casa dela, que se situa aproximadamente a 4 kms dai, entregar um ramo composto por 20 rosas vermelhas, 20 azáleas brancas e 20 dálias amarelas.
No meio do ramo gostaria que "espreitasse" um girassol (não necessita ser exactamente assim o ramo, mas a ideia é ter 3 variedades de flores com 3 cores diversas e o girassol no meio).
Graças a Deus, não tenho problemas em pagar o que for preciso, se bem que dava todo o meu dinheiro para poder ficar com a Joaninha.
A primeira parte da surpresa será esta, a segunda consiste em simultaneamente entregarem ao pai dela uma coroa de flores daquelas que são utilizadas nas cerimónias fúnebres (não precisa de ser algo muito elaborado, até pode ser das mais baratas pois o que interessa é a intenção).
Pensei em escrever algo do género "R.I.P. António que a tua filha fica em boas mãos", mas não será necessário, pois como vão entregar as flores à Joana ao mesmo tempo, ele saberá rapidamente de quem se trata.
O nome dele é António Pereira e o da filha Joana Pereira.
Há pouco tempo, contratei uma empresa de chocolates para entregar uma caixa de bombons à Joana, dentro da caixa cada bombom correspondia a uma letra e quando se abria a caixa podia ler-se "Amo-te Joaninha".
No entanto o pai dela não reagiu bem à entrega, pelo que o senhor da empresa de chocolates foi corrido à pedrada, acabando por depositar a caixa no dia seguinte no correio deles.
Não quero que isto se repita pois fiquei sem saber se ela recebeu mesmo a caixa de bombons.
Espero que me garantam a entrega das flores e da coroa e gostava de saber qual o preço, para me dirigir à vossa loja com o dinheiro.
Como estou consciente do risco que envolve tudo isto, e como é algo que eu quero mesmo que seja feito, estou disposto a dar mais algum dinheiro, já que o homem é desequilibrado e a Joana disse-me que ele tinha uma arma à minha espera.
Aguardo resposta em breve,

Mário Dias


Olá amigo ou Sr. Mário Dias

Li todo o seu e-mail e de facto no que reveste à entrega das flores à Joaninha, não tem problema.
O nosso trabalho é personalizado e ela vai recebê-las, dentro do timbre distinto que deseja.
No que diz respeito ao seu futuro sogro... (eu não quero dar-lhe conselhos), mas não vamos pactuar com um gesto informal, que em nada iria dignificar a nossa empresa, com a entrega da coroa de flores a um vivo premeditadamente. A não ser que não se tivesse confessado, nesse caso iria.
Eu no seu lugar contrataria um psiquiatra para ir lá a casa mudar-lhe a mente para o seu lado... quem sabe... vai ter nele um grande amigo.
Sendo tudo de momento,
Cordiais saudações, enquanto fico a aguardar pela sua decisão.
Atentamente:

Manuel Ferreira
FlorEden L.da


Amigo Manuel

Agradeço desde já a resposta e o conselho que tão amavelmente me remeteu. Às vezes é importante uma voz neutra que nos chame à razão. Como diz o poeta, “o Amor é cego” e de facto eu fico invisual com o autoritarismo gritante daquele homem e com a sua intransigência no que concerne à minha relação com a Joaninha. Eu amo aquela mulher, amigo Manuel, e de certeza que o senhor também já amou e sabe como estas coisas são. Esta noite estive a meditar sobre a coroa de flores e realmente sou obrigado a concordar com o meu amigo: É para vocês constrangedor entregar a coroa de flores a um ser vivo. Por isso, e para vos salvaguardar, decidi que remeteremos um bilhete junto à coroa com o seguinte teor:
“Quando em breve nos deixar, sogro do meu coração, esta coroa que fui comprar, será a primeira no seu caixão. A Joaninha fica bem entregue e seja Verão ou Inverno, estaremos juntos na sua cerimónia “funébre”, desejando-lhe uma boa estadia no Inferno.”.
Com algum humor à mistura, penso que assim fica explícito que a coroa é só para quando ele morrer, ficando ele para já como uma espécie de fiel depositário da mesma. Para a Joaninha bastará um cartão com a palavra "amo-te". Espero com isto que ele pense bem nas atitudes que toma, nas vezes que me impede de ver a filha, nas ameaças que já me fez se eu me voltasse a aproximar da Joaninha e nas duas vidas felizes que está a destruir. Às vezes parece que ele não se apercebe que todo este domínio que exerce sobre a Joaninha molda a personalidade dela para o futuro, visto que ela tem 14 anos (faz 15 este ano, em Agosto) e nesta idade negar-lhe o amor pode ter consequências desastrosas a nível psicológico. Concordo com o amigo Manuel, quando diz que ele precisa de um psiquiatra, há desequilíbrios que aquele homem tem que tratar o mais depressa possível, antes que torne a Joaninha numa pequena monstra sem sentimentos.
Amigo Manuel, solicitava-lhe que me dissesse o orçamento para as entregas em apreço, se tiver mais alguma ideia ou conselho é com muito gosto que o recebo.
Com amizade,

Mário Dias


Olá Mário Dias

Ora então vamos lá fazer um pouco do socialmente chamado "Concílio pr'á vitória":
Como lhe falei, a nossa empresa não irá entregar qualquer coroa de flores ao "dito cujo", por uma questão ética e de boa moral interna da nossa empresa.
Também acho que você está a entrar pelo caminho errado, e não irá conseguir apanhar moscas com o vinagre...
Depois de eu ter relacionado um pouco os factos, concluí que qualquer pai... (e o Sr. Mário um dia será certamente), defenderá uma filha com 14 anos, por se tratar de uma idade ainda um pouco prematura... mas não quer dizer que o senhor Mário esteja errado, é só uma questão de mais algum tempo e o pai dela vai aceitar "no tempo", porque ele não é dono da filha mas sim pai.
O Sr. Mário irá trocar a coroa de flores, por exemplo juntando ao presente para a sua querida Joaninha, uma garrafa de um bom vinho com a indicação para ela oferecer ao pai e assim sim, você vai conseguir levar a água ao seu moinho, para fazer a sua farinha.
É tudo de momento.
Um abraço,

Manuel Ferreira
FlorEden L.da


Boa noite, amigo Manuel

O silêncio a que me remeti estes tempos não foram mais do que dias de reflexão sentimental sobre o que sentia pela Joaninha e uma reflexão comportamental sobre a atitude que ia tendo ao quase contratar Vexas para efectuar um trabalho tão macabro e desprestigiante para a vossa casa como aquele que lhe transmiti.
Estou a escrever estas linhas e apenas uma palavra define o que sinto... vergonha.
Também poderia utilizar 3 palavras… vergonha na cara.
Ou até mesmo 16 palavras: vergonha pela minha conduta de um nível tão baixo que foi bem indiciadora da minha infantilidade.
Estas linhas, estão-me a custar a escrever, mas face à sua simpatia desde o primeiro minuto em que estabelecemos contacto, sinto-me na obrigação de lhe confessar uma coisa:
A verdade é que a Joaninha é completamente alérgica a flores.
Começa a ficar vermelha, cheia de borbulhas e até começa a espumar-se e esse foi o motivo pelo qual entendi que deveria remeter-lhe o ramo.
Ela não fez tudo o que devia pelo nosso amor… Deu ouvidos ao pai e foi pela raiva que estava a sentir que decidi mandar-lhe a ela o ramo e a ele a coroa de flores.
O amigo Manuel com os seus conselhos e com o seu brilhante "Concílio pr'á vitória" contribuiu para que eu percebesse muito melhor estas coisas do amor. E por isso é do fundo do coração que lhe agradeço toda a frontalidade com que tratou esta questão.
Não tenho dúvidas que, depois de saber isto, não vai entregar nenhum ramo à Joaninha, pelo que me resta terminar com um bem-haja e com os votos que seja feliz com a Joaninha que eventualmente pousou na sua vida, amigo Manuel.
Se me permite dar-lhe também um conselho, não ligue àquele dito popular que diz "Joaninha voa voa que o teu pai está em Lisboa" e, se tem a sua Joaninha, prenda-a e não a deixe escapar. Não a deixe falar com os pais dela e se necessário prenda-a mesmo. Se tiver uma cave ou um sótão é o ideal. Acredite que as Joaninhas também precisam de apoio psiquiátrico! Não são só os pais delas!
Este mundo, infelizmente está cheio de loucos e poucos somos os que escapamos.

Abraço amigo do Mário Dias

5 comentários:

  1. é pá, este Manuel Ferreira é um gajo porreiro e deu bons conselhos ao Sr. Mário Dias :)

    este mail está top, já te tinha dito :) :)

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  2. Jura que existe mesmo um Mario Ferreira? Não posso crer...
    talvez seja a isto que chamam atendimento personalizado...inacreditavel!..."Não se apanham moscas com vinagre"...???..."Uma garrafa de vinho para oferecer ao pai da joaninha"...???..."levar a água ao seu moinho, para fazer a sua farinha"...???...Minha Nossa...afinal ha mais loucos a responder ao emails do que a escreve-los...

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  3. Fiquei fã do sr.Manuel Ferreira (cujo nome me é bastante familiar) mas tenho cá pra mim que vou adaptar a ideia da coroa de flores à minha vida... Depois de ler os vários e-mails, cuja informação acho muito explícita e de muita utilidade futura, terei atenção para não repetir os erros do sr. Mário Dias e não direi, portanto, que a pessoa a quem a coroa se destina ainda está viva e de boa saúde.
    "R.I.P. Asdrúbal, que nesta história eu sou a heroína e ninguém precisa de me salvar, arranja outro vício, outros rebuçados ou outras pastilhas para mastigar"

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  4. Brutal! O Sr Manuel Ferreira podia mudar de ramo e dedicar-se à psicologia ou terapia para casais.. Já viste? Encomendas flores e tens uma consulta de borla? Há loucos com sorte ;)

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